domingo, 6 de setembro de 2009

pausa











quarta-feira, 19 de agosto de 2009












férias.

terça-feira, 14 de julho de 2009

em miúdos

Dobrou o bilhete enquanto pensava no que havia escrito, as palavras espremidas pareciam até verdades, como vindas de impulso, não filtrou muito, espontâneas, um tipo de mulher solta que desfruta os minutos, que mentira, nem sabia se queria escrever aquilo, por isso usou o lápis, caneta é coisa séria, mesmo não tendo nenhuma borracha, quando quis apagar a parte do sinto uma saudade profunda, não achou saída e deixou ali, combinações piegas, misturou sexo e alma na mesma frase, comentou sobre o livro que estava lendo, parecia ter alguma ligação, lembrou de Paris, aquela tarde em Londres, falou de amor, logo ela que sempre fugiu de melosidades, apesar de ser a primeira a derreter na cadeira do cinema, disfarçando os olhos pra cima e cutucando o copo de refri, inquieta, certa vez, em meio a uma insónia embalada por The Velvet Underground e sete cigarros, saiu fazendo ligações como uma bêbada de tédio ou falta de preencho, igual estava no dia em que cortou a mão, foi sem querer, mas fez um drama, disse não conseguir respirar, falou assim mesmo, bem devagar, não-con-si-go-res-pi-rar, talvez não soubesse assumir dor, e aquela era visível, ninguém a julgaria, veio acumulada, disfarçada, chorou e chorou.
Deixou o bilhete no travesseiro e se foi.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"don't stop till you get enough"










.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

relance

Traz o chá, bota a mesa.
Eu como
você por partes me olha
em meios sorrisos.
Suspeitei do trago
mal dado
ameacei desculpas
desisti.
Leite?
Um pouco.
Novamente silêncio.
Percebi a nuca gasta
de mim. Vi que o cheiro 
não me diz mais nada -
nem lembrei dos lençóis 
perdidos entre pernas
o hortelã com cigarro
as palavras no espelho -é batom 
vermelho, meu bem.
Taí, achei que iria
mas só fiz as malas -
esse lado joga limpo.
Hoje é dia de maldade.
Açúcar?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

siesta


segunda-feira, 1 de junho de 2009

The Band Wagon

Fred Astaire and Cyd Charisse (1953)

sábado, 23 de maio de 2009

alô dos tempos

já fizemos tantos brindes
mas deixamos passar mil novas histórias
como teria sido?
lembro que você dizia como o tempo surpreende
como os minutos levam tudo.
vou te ligar do alto daquele prédio comprido
na hora do almoço, bebendo aquele mesmo suco
de anos atrás.
ah, outro dia comi aquela torta, lembra?
ainda a fazem na padaria do seu Antunes.
volta e meia vou lá, sento na mesa dos fundos.
acho que você nunca gostou muito daquele lugar
mas tinha um cheiro doce, você notava
comentava alto por causa do fone nos ouvidos.
as vezes sinto de longe, da calçada;
aquele cheirinho de açucares misturados!
mas não sei se é coisa da minha cabeça.
acho que passou tempo demais
a mudança se fez nítida assim de repente
parece que tudo mudou em um piscar
e a falta ganhou décadas em segundos.
amigo,
deu um nó de saudade.
vejo flashs do seu allstar vermelho
me vejo correndo pelo play
e você atrás gritando:
"é magrela, mas é rápida!"



video; música; "Lisztomania", do Phoenix. e trechos de filmes dos anos 80
("The Breakfast Club","Pretty in Pink", "Mannequin" e "Footlose")

segunda-feira, 18 de maio de 2009

um clichê faz bem

Marilyn Monroe

quinta-feira, 14 de maio de 2009

púrpura

hoje estou néon
reluzente como o open 
do motel da esquina.
já viu cor mostrar alguém?
me dispo os tons;
azuis amarelados, eu
gastei vermelho à toa.
lhe percebi quando passou;
emanava um jeito de
quem me sabe, levava consigo 
meus anos, manchas borradas 
no papel.
quem vê até pensa 
que ainda me colore.

terça-feira, 12 de maio de 2009

do silêncio

" Frente a frente, derramando enfim
todas as palavras, dizemos, com os
olhos, do silêncio que não é mudez."

Ana C.

silêncio






.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

caminos

salí por ahí... 



pero mi comienzo ya empezó desde
hace mucho, mucho tiempo
mucho más tiempo de lo que yo sepa
y si hubiera hecho demasiados planes
hasta hoy se quedarían esperas
esperanzas por cosas que tal vez
no iba ni saber os decir los porque`s
ahora, no cuento más los años
no hace falta, son solo numeros 
(los olvidaré muy pronto)
y me quedo sin medir las cosas
mientras no hago más comparaciones-
también solo numeros... 

ya he ido por ahí
y no hubo una vez que 
supe decir el final
son ganas perdidas
y yo soy sin fin...
es un lío pensar mucho, 
no? 

quarta-feira, 29 de abril de 2009

mais um dia

me faço inteiro na correria do
dia-a-dia escolho um todo entre
pedaços e restos
desmonto a rotina com olhar oposto
deixando ser como eu quiser
porque amanhã não é mais hoje
e só descobriu quando já era ontem

quarta-feira, 15 de abril de 2009

green grass


Cibelle Cavalli

sábado, 28 de março de 2009

permitido permitir

é um lado de lá que vive aqui
a saudosa vontade de ser um todo



foto; david lachapelle

terça-feira, 24 de março de 2009

fortaleza

por mais entrega fugiu a
racionalidade
fez um leve descontrole 
e a rachadura trouxe um ar que
circulava fora, ventilou espaços 
abriu contatos com
o externo antes mudo
tampado, vedado estava
apesar de que pelo vidro 
dava pra ver quase tudo

[bendita falha humana]

quinta-feira, 12 de março de 2009

rascunho

se a ideia não vem, nem a
imaginação salpica dentro em
formas e tons
saio escrevendo em jogo solo
tentativas sobre o papel 
quem sabe acontece um click 
ou uma mistura interessante em 
meio a falta de nexo ou coerência
e o que é o nexo quando 
a liberdade é tamanha quando 
os sentidos são mera ocasionalidade do 
conteúdo exposto, moldado por 
vontades mil 
e transmitido pelo 
simples desejo de assim 
fazê - lo

quarta-feira, 4 de março de 2009

lunar

exposta de cima; 
assiste 
soberana, engana quem
pensa nada mudar quando circula o 
ar em recheio inteiro
e traz um tom de fim e começo,
esperança à espera de
nova aurora

saúde ao novo!
é vida
retrato de um passado que se foi há
um segundo e continua ali;
sendo o futuro, virando o presente
indo e vindo
mutante, mundano
familiarmente novo

e o corpo é mais agua
cerca de 75% em litros 
mareiam olhos aqui 
e aí também
transbordam marés
milhões de pacíficos, índicos,
mediterrâneos fartos de vontades,
medos, sonhos, receios
tesão

um mergulho profundo;
olhos abertos, olhos fechados
embalo, me guio em fluxo misturado
espero o momento do uivo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

nosdetalhes2

infelizmente aconteceu algum problema com minha conta do blog nosdetalhes.blogspot.com 
sendo assim, criei este novo; nosdetalhes2.blogspot.com
todos os meus escritos que estão abaixo estavam no nosdetalhes.blogspot,
consegui recupera los e trazer para cá,
mas infelizmente os comentários não vieram junto

sejam bem vindos ao nosdetalhes2.blogspot.com

recuerdo

"lo que hoy relatamos de nuestra infancia
no tiene nada que ver con lo que
relataremos dentro de veinte años."

"de manera que nos inventamos nuestros recuerdos,
que es igual que decir que nos inventamos a nosotros mismos,
porque nuestra identidad reside en la memoria,
en el relato de nuestra biografia.
por consiguiente, podríamos deducir que los humanos somos,
por encima de todo, novelistas,
autores de una única novela cuya escrita
nos lleva toda la existencia y
en la que nos reservamos
el papel protagonista."

Rosa Montero

not for sale


música: not for sale, por CocoRosie.

"you can leave me
on the corner
where you found me
i`m not for sale anymore"

not for sale II







fotos: Ellen Von Unwerth

descasco

deslaço
me abro
entre serpentes abismos
esquivando desatino
se alastra a despedida
[vem o cheiro de enxofre]

nasce súbita
nova graça
traz tempero
em descarrego lento

uma pitada de vigor
vem do fundo do meu olho
me envolto toda
em fresco olhar

as vejo?

as linhas separam
há linhas que se
param no meio há
linhas

silêncio tem som?

dou um pio calada
dentro da minha cabeça escuta de tudo
e fala muito
pensar faz barulho
ou pelo menos vibração

viro do avesso só pra testar
me encontro em mim mesma

???

existem certezas que simplesmente
não importam.

boa noite

nossas roupas largadas pelo chão
preguiça de levantar
uma leve ressaca gostosa do
vinho de ontem nos sobe
em pequena dor de cabeça
mesmo assim
tem prazer rondando
em tudo
encaixada entre ombro e peito nus
(pele macia)
mexo lentamente
sem abrir os olhos me sente
gira
frente a frente
lábios com lábios
bom dia

calor humano







cruzando fronteiras

aguda é a vontade presa
atrás de algum sonho

já soltei o freio da porta
a janela não me cabe mais
eu quero é passar
passar passar
passar





e eu tô indo!


[meu verão vai ficar pra próxima]

update your heart

a cabeça devora cada cantinho de sentimento espontâneo
vai moldando as sensações e lapidando os gestos
programa os momentos
aperta play na hora certa e stop quando necessário
slowmotion é pra pensar melhor
e o delete é importante pra continuar aguentando
a bateria poder ser carregada com um drink forte
um bom orgasmo
mas é preciso programar o coração
porque o amor
vem sem manual

nado livre

acendeu a luz do quarto;
faltava presença naquele estar,
porque nos buracos que existiam,
o ar até murchava, faltava.

o tempo deixou um lado mudar sem avisar pro outro,
confundiu aqui e ali.
este móvel entrava do lado da cama,
mas isso foi há uns seis anos atrás,
agora ele fica perto do armário, coladinho nele.
as vezes ela se move como se o móvel ainda estivesse do lado da cama.

dizem que nos acostumamos a tudo.
mas se acostumar é a tentativa forçada de um querer inventado;
é lógico que alguma parte da gente não vai aceitar desse jeito.
aah, não vai...

espera, assim não dá pra ver se a água tá boa;
ou mergulha ou nem molha o pé!



sweet redemption

deixo o chocolate derreter derreter
derreter dentro da minha boca
derreter na minha boca
aqui dentro eu toda
derreto


pego aquela taça de vinho...



foto; ManRay

desassossego

leveza é consciência aliviada, borbulhar de ideias, sorriso inteiro
um andar macio, soltos movimentos, olho no olho sem medo de contatos
é mostrar quem é, o que faz e fez
ir e vir sem temer escolhas
se chover, pega o guarda chuva, ué!
existe pássaro que não voa, sua asa é só enfeite
atrás da gaiola a comidinha é certeza, e se chover, já tem teto

atravessou a rua olhando para os dois lados
peraí, mas não era mão dupla;
os carro não vinham de um lado só?

mesmo assim

a rua continua a mesma. o mesmo sinal continua no mesmo lugar e com as mesmas cores. agora tá lá brilhando o mesmo amarelo; aposto que muitos carros vão passar como se fosse o verde -as mesmas manias. as pessoas na calçada não são as mesmas, mas caminham do mesmo jeito que caminhavam as outras. que buzina histérica! os carros fazem o mesmo barulho. tem um quê de mesmo nesse cachorro, mesmo eu nunca tendo o visto. o cheiro não é o mesmo, mas mesmo assim, tem mesmice em seu aroma. olha lá, é a mesma esquina, continua ali no mesmo lugar. lógico, esquina não anda, a gente, que de mesmice, anda por ela. ela só nos conduz, e sempre para os mesmos lugares; de cá pra lá ou de lá pra cá.

mesmo assim, dentro de mim tem um mesmo que não é mais mesmo, ou uma mesma que mudou. e por isso, todo o mesmo a minha volta ganha outra mesmice. mas continua o mesmo, mesmo assim.

por uma vida mais doce


trecho do filme "breakfast at tiffany`s" (1961),
com Audrey Hepburn e George Peppard

ain't got no...i`ve got life


Nina Simone

um ano, amor.


música; just can`t get enought (depeche mode), por Nouvelle Vague



need a dink?

foto: chema madoz

uma sede
que não vem do seco
vem é de um molhado
impulsiona os corpos
lhe convida para um drink

tim tim

ser

do ser

sai mistério pela casca
como tatear o ar

fechar olho no escuro
respirar o gosto

e chora sorrindo

movimentos imitados
educados para o medo
programados para a dor



vai
inibe o real

procure um encaixe
ache 
defeito
onde não tem

veja!

inquietude em semblante manso
em ruga escondida
em sorriso sem dente

na frente tem sempre alguém melhor?

distâncias tão próximas

misturam diferenças semelhantes
mas cegueira impede
o contato cru


enquanto isso 
célebres exemplos fazem festa em
lisérgico mundo


já foi dada a marcha sincronizada

um dois um dois

e o controle remoto cerebral 

nem filtra
está ocupado demais

fingindo...



música: ciranda da bailarina, Chico Buarque

vida mecanica

um café, por favor
tá frio aqui
adoçante

que música é essa?
um trago
dois
três
a conta

parabrisa acelerado
sobe o vidro
cd
alô
tô chegando
vermelho
espera
verde
ó a vaga aqui tia
dois reais

pula poça
abre a porta
dois beijinhos aqui
dois beijinhos ali
hahaha, hahaha
quer companhia?
não
banheiro logo a direita
mojito! mojito! mojito!
táxi!

dor de cabeça
um café, por favor
duplo
mesmo crachá
você de novo
água
muita água
tem isqueiro?
continua frio

parabrisa acelerado
sobe vidro
ó a vaga aqui tia
...

pela brecha

tenta adivinhar
no vai e vem do meu andar
um sinal

sei
que desvenda meu jeito
sutil desejo
lábios bunda pernas seios
desgarrado pensar

guarda dentro
não me mostra
no galope das fraquezas
retrai

híbridos gestos não norteiam
mil disfarces escondem

e finca o pé
súbitos medos
mas de algum jeito
vejo a brecha em seu olha

com você

momentos antes
a vontade mal cabe em mim
como se meu corpo transbordasse
de tanto querer

o prazer [ainda] implícito
ganha forma imaginária
(parece concreta)
e meu corpo liga todo
dá até pra sentir
um vibrar
indo e vindo
da cabeça aos pés

mas não estou sozinha
e meu vibrar se multiplica
ao se enlaçar com o seu

é que é tão sensorial
deleite
de carne e alma
juntos
em um só momento

aí eu me solto...
deixando me de presente pra minha vontade
e esperando ela me levar
deliciosamente...



[é puro movimento]

em uma só


foto: Mario Testino


Lembrou da frase de Nelson Rodrigues que dizia que "o sujeito, seja ele homem de bem ou pulha, é uma assassino falhado. Não há ninguém, vivo ou morto, que não tenha concebido a sua fantasia homicida.", e pensou no lado obscuro do oculto das pessoas.

"Todo mal não é mal o tempo todo", sussurrou baixinho.
Ela sabia que existia um oceano dentro de si e que controlar quando a maré subia era bem dificil. Mas também sabia que tinha seus momentos de lagoa.
"Me deixa ser!", gritou sozinha.
E pensou não ser uma pessoa tão ruim
e nem tão boa...

Gostou de seus pensamentos
sentiu-se humana mesmo
com direito a ser chamada de normal
...e louca

colorindo


imagem: Matisse


banho no azul
bate vermelho
em mim
respiro verde
o ar
que o amarelo
iluminou

deixo o rosa entrar...

branca paz
preto fim?

sendo

fascinada pelo oculto
tenta descobrir-se

nunca saberá o todo
é muito profundo
e só se revela
por p a r t e s

descobriu a
importância da busca
mesmo sabendo
que todo fim
leva a um novo
começo

recebe respostas
com novas perguntas

coleciona pensamentos
armazena na memória
inventa sentimentos
quem lhe dirá o contrário?

testa aqui, tenta ali
( ) escolhas
( ) escolhas
( ) escolhas
( ) escolhas

descobre constantemente
um novo ser familiar

à mostra.


música: you dont know me, por Caetano Veloso.


Oh! ela sabia a grandeza do problema
queria curativo
para tampar
é que explodiu pra fora
e todo mundo viu

quando isso acontece
não tem mascara que cobre
e mesmo se tivesse
seria pior

é como estar nu
à mostra

o titulo está em falta

[e a foto/video também]


tá faltando chuva nesse sol
já pensou se seca tudo?

hora no tempo
nó no laço
molhado na água
tá faltando tudo isso

por onde você vai?
tá faltando chão nessa estrada

sossego no caos
descanso no cansaço
devagar na corr e r i a

tá faltando a azeitona
o queijo
a outra metade
a tampa da panela

e a fala do silêncio?
tá faltando

o be
no ijo
e o a
no mor

movimento no parado
e pausa no movimento

tá faltando não ter falta
e a falta
tá faltando

é tanta falta que falta até fim
fica meio pelo meio
termina faltand...

entre gemidos.

o vicio joga ela na cama
ela gosta goza chora ora
quase toda noite

finge não querer
mas atiça excita geme grita
faz de novo

cobra, e solta
pede, [se] perde

abusa
se deixando um tanto...
entre gemidos


[ela quer amar]

nostalgia

Deitada no chão contava as pintinhas da mão. Sabia que um dia cresceria e elas continuariam ali; o mesmo número. Nasceria alguma nova? Mudariam de lugar? Esticariam? Lembrou da infância quando pulava elástico no play e gritava com os meninos como se não precisasse deles para nada. Lembrou que se sentia livre quando corria; gostava do vento soprando no seu rosto e da sensação do cabelo voando para trás. Lembrou que naquela idade o tempo era leve e a vontade era inteira. Sabia que havia aproveitado seus dias de criança, mas hoje a sensação é tão diferente que queria resgatar as antigas. Impossível. Agora existem responsabilidades, cobranças, ansiedades que sabe nem do que e medo do desconhecido. Impossível sentir aquela leveza de novo, aquela graça, aquela liberdade. Agora a leveza, a graça e a liberdade vêem diferentes. Agora a busca é decisiva. Os erros cometidos ganham mais pesos e aquele papo de que existe a vida inteira pela frente diminuiu.
12 pintas, ela contou. E isso só até onde quis, desistiu de continuar. Sabia que os pensamentos entravam em uma nostalgia que não tinha mais graça saber um número exato para nada. Ela não queria certezas. Queria um estimulo de que o duvidoso é bom, de que demorar não tem problema e se enrolar faz parte. Queria uma sensação mais intensa do sentir, algo que a pegasse fisicamente e desse a impressão de estar viva. Viva para pensar menos no amanhã, se prender pouco ao passado e agarrar o presente.

Ao som de Billie Holiday


Desligou o chuveiro, se secou um pouco dos pés a cabeça, e decidiu sair nua do banheiro -só com a toalha enrolada nos cabelos tipo turbante. Após desfilar por um longo corredor, entrou no quarto imaginando a alegria do vizinho tarado, e fechou a porta se sentindo sexy.

Na verdade, ela estava é se sentindo leve, como a anos não sentia. Estava mais desprendida, e cheia de vontades.
Resolveu ouvir música, e foi [ainda nua] em direção ao som. Billie Holiday entrou pelo quarto; sua artista preferida. Arriscou uns passos em frente ao espelho -ela tinha um daqueles enormes que mostra o corpo todo- enquanto cantava junto com sua diva.

Foi se vestir. Seus pensamentos estavam fora dali, embalados pela melodia (o volume estava nas alturas). Queria se deixar levar. E foi.
Enquanto colocava a calcinha, imaginou ele vindo em sua direção e chamando a para dançar. Tudo ali mesmo, naquele quarto, com aquela música, e sem calcinha -ainda não a tinha vestido, estava na altura das coxas. Sorriu mordendo os lábios.

Pronto. Agora de calcinha deitou na cama de barriga pra cima abrindo os braços para os lados, bem espaçosa. Fechou os olhos e voltou a imaginar. Se viu sentada em uma daquelas cadeiras simples de metal -dessas que dobra e desdobra fácil- em um canto de uma espécie de salão de festas. Não entendeu o porque da cadeira e nem do salão, mas se deixou levar pela história achando graça. Não conseguia ver o redor do lugar que vinha na sua cabeça, se imaginava distraída, sentada sozinha e olhando para baixo. Foi sentindo que alguém surgia em seus pensamentos -para dar alguma razão aquela cadeira sem graça e aquele salão sem expressão. Então, pensou nele chegando. Ela olharia para cima e ele estaria ali; estendendo a mão com aquele sorriso que ninguém mais sabe fazer. Juntos andariam de mãos dadas e parariam ao chegar no centro do salão, um de frente para o outro. Uma pausa; se olhariam por alguns instantes como quem espera entender por onde começar. Então, imaginou suas mãos procurando um caminho enquanto as dele deslizariam até sua cintura. Seus peitos se encostando e as respirações se confundindo. Dançaram ao som de Billie Holiday, bem devagarinho, de um lado pro outro. Pensou em alguma coisa inteligente para dizer a ele, mas as palavras não tinham significados, não interessavam, como se o sentir fosse a única opção.
Se levantou da cama. Ela queria dançar de verdade. Agarrou o ar como se fosse seu par dos pensamentos, fechou os olhos e se deixou levar novamente. Voltou para o salão de sua cabeça, voltou para os braços dele que agora a giravam levemente e cheios de graça.
De repente o telefone tocou. Abriu os olhos meio zonza e parou. Levou um susto, como se do outro lado da linha fosse a realidade chamando a de volta. Billie Holiday ainda cantava por todo o quarto, e correu para abaixar o volume. Na volta, parou ao passar pelo espelho -o telefone ainda gritava, mas ela queria seguir o tempo dela, sem pressa. Parada se encarou de forma marota e tentou olhar pra dentro daquele corpo só de calcinha. Teve certeza de como era dona de si mesma, se achou mulher-inteira.
Billie ainda cantava baixinho no fundo, e se olhando nos olhos, cantou junto com ela; "I'll be seeing you, in all the old familiar places, that this heart of mine embraces, all day through..."
Deu um sorriso doce -pra ela mesma- e foi atender.

sem querer, querendo.

Todo dia ele sentava na mesma cadeira, da mesma mesa e pedia a mesma comida. Ninguém entendia como ele não enjoava de comer ovos com presunto toda a manhã. Para acompanhar seu cardápio preferido vinha sempre um cafezinho; preto, duplo e sem açúcar. Comia sempre sozinho. Quer dizer, quase sozinho. Junto de si trazia um instrumento que o acompanhava sempre. Todo dia o mesmo, nunca esquecia. Parecia ser um contrabaixo, mas muitos duvidavam; alguns tinham a maldade de achar que por debaixo daquela capa não havia instrumento algum, e sim algo para lá de esquisito, como o próprio dono era.
As vezes umas pessoas perguntavam algumas coisas, mas ele nunca dava muita abertura; respondia o necessário. Era educado, sempre agradecia, mas nunca ia além de um “obrigado”.
Luisa era o nome da garçonete mais bonita do restaurante. Na verdade, suas curvas, que balançavam de um lado para o outro naquele uniforme, era o que deixavam os homens desconcertados. Mas Luisa adorava o assedio. Cada dia parecia que sua mini saia preta, que vinha por debaixo do avental, diminuía. Sempre usava batom, blush, arrumava o cabelo e colocava o decote.
E era ela que ele olhava. Ele sentava sempre no mesmo lugar [de propósito] porque era uma mesa que fazia parte das que ela atendia. Todo mundo reparava, inclusive Luisa, e por isso o recebia sempre mais provocativa do que com os outros. Adorava a idéia de ter um admirador tão diferente. Abusava das mexidas nos cabelos, das poses ao anotar os pedidos e do modo de falar. Parecia que cada frase que ela dizia como “ o que deseja?” ou “ vai comer o que?” ele só entendia pelo lado pornográfico. Não que ele falasse alguma coisa desrespeitosa para a moça, mas é que suas expressões não enganavam.
Ele a intrigava. Um homem de poucas palavras e que a comia com os olhos. Ela tentava puxar algum assunto, mas ele era difícil de penetrar e isso só a instigava mais, fazendo-a assim, jogar ainda mais charme, abusar mais dos bicos e incrementar ainda mais no rebolado.
Ela tinha ciumes do contrabaixo, e não entendia muito porque. Luisa era quase da altura do instrumento, e ele tinha curvas, como ela. Pensava nas mãos dele deslizando pela aquelas cordas, passando de um lado para o outro, e imaginava seu corpo produzindo música.
Mas todo dia era igual; ele chegava, ela o servia e nada de novo acontecia. Ela gostava de ser instigada, gostava do mistério. Mas era só isso (era o que pensava se duvidando o tempo todo).
Ele era um estranho para ela, nunca haviam conversado direito, nem trocado alguma intimidade. Era tudo muito no ar, deixava ela curiosa.
Quando estava perto dele, sentia um quente na altura do peito que subia até o rosto saindo pela boca como um sobro "uff" de descargo.
Ela achava que ele a queria mas também não sabia se era real. Na fantasia, ela o desejava. Mas na vida, pensava diferente.
Não se entendia, nem sabia se sairia com ele caso recebesse algum convite. Na verdade, ele não fazia muito bem o seu tipo, não era nada ataente; tinha uma cara fechada e dava poucos sorissos (Luisa vivia rindo para todos). Ela o achava raivoso, sem jeito e até gordo. Achava que ele nunca havia amado ninguém -nem se apaixonado- e vivia sem amigos. Ou pensava que ele tinha traumas de outros relacionamentos e por isso era daquele jeito -ela não gostava de complicados, bastava ela.
Luisa achava um monte de coisas, mas uma dessas era certa; se molhava toda só de ir andando -empinadíssima- na direção dele para anotar o pedido.